
Nosso caso de amor pode gerar rumores
mudar o tom do nosso humor
como o som do liquidificador
interferindo em nosso som
e nós que vivemos em contradição
um pouco de culpa, um muito de tesão
talvez temamos essa interferência
talvez isso desate o nosso laço
os dois em xeque e talvez mate
ou torne escasso...
o que nos parecia excesso
talvez vire o nosso amor do avesso
e essa intimidade acabe
please please
não conte para ninguém o que você sabe.

More and more frequently the edges of me dissolve and I become a wish to assimilate the world, including you, if possible through the skin like a cool plant's tricks with oxygen and live by a harmless green burning.
I would not consume you or ever finish, you would still be there surrounding me, complete as the air.
Unfortunately I don't have leaves. Instead I have eyes and teeth and other non-green things which rule out osmosis.
So be careful, I mean it, I give you fair warning:
This kind of hunger draws everything into its own space; nor can we talk it all over, have a calm rational discussion.
There is no reason for this, only a starved dog's logic about bones.
 Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
 Aquela que dormirá comigo todas as luas É a desejada de minha alma. Ela me dará o amor do seu coração E me dará o amor da sua carne. Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios Ela é a querida da minha alma Que me fará longos carinhos nos olhos Que me beijará longos beijos nos ouvidos Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso. Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego Ela abandonará filho e esposo Abandonará o mundo e o prazer do mundo Abandonará Deus e a Igreja de Deus E virá a mim me olhando de olhos claros Se oferecendo à minha posse Rasgando o véu da nudez sem falso pudor Cheia de uma pureza luminosa. Ela é a amada sempre nova do meu coração Ela ficará me olhando calada Que ela só crerá em mim Far-me-á a razão suprema das coisas. Ela é a amada da minha alma triste E a que dará o peito casto Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração Ela é a minha poesia e a minha mocidade É a mulher que se guardou para o amado de sua alma Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele. Ela é o amor vivendo de si mesmo. É a que dormirá comigo todas as luas É a que eu protegerei contra os males do mundo. Ela é a anunciada de minha poesia Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água. Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam. Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida. Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos. Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.
Deixa-me errar alguma vez, porque também sou isso: incerta
e dura, e ansiosa de não te perder agora que entrevejo um horizonte. Deixa-me errar e me compreende porque se
faço mal é por querer-te desta maneira tola, e tonta, eternamente recomeçando a cada dia como num descobrimento dos
teus territórios de carne e sonho, dos teus desvãos de música ou vôo, teus sótãos e porões e dessa escadaria de tua
alma.
Deixa-me errar mas não me soltes para que eu não me perca deste tênue fio de alegria dos sustos do amor
que se repetem enquanto houver entre nós essa magia.
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
Imagem: Ne
Barros
 The fountains mingle with the river And the rivers with the ocean, The winds of Heaven mix for ever With a sweet emotion; Nothing in the world is single, All things by a law divine In one spirit meet and mingle - Why not I with thine? See the mountains kiss high Heaven And the waves clasp one another; No sister-flower would be forgiven If it disdained its brother; And the sunlight clasps the earth, And the moonbeams kiss the sea - What are all these kissings worth If thou kiss not me?
 Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Two roads diverged in a yellow wood, And sorry I could not travel both And be one traveler, long I stood And looked down one as far as I could To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, just as fair, And having perhaps the better claim Because it was grassy and wanted wear, Though as for that the passing there Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay In leaves no step had trodden black. Oh, I marked the first for another day! Yet knowing how way leads on to way I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh Somewhere ages and ages hence: Two roads diverged in a wood, and I, I took the one less traveled by, And that has made all the difference.


Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão.
O amor é uma construção do desejo. Sexo não depende de nosso
desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por
amor. Ninguém sofre com tesão. Amor e sexo, são como a palavra farmakon
em grego: remédio ou veneno - depende da quantidade ingerida.
O sexo vem antes. O amor vem depois. No amor, perdemos a cabeça,
deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do
pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha.
O amor sonha com uma grande redenção. O sexo sonha com
proibições; não há fantasias permitidas. O amor é o desejo de atingir a
plenitude. Sexo é a vontade de se satisfazer com a finitude. O amor
vive da impossibilidade - nunca é totalmente satisfatório. O sexo pode
ser, dependendo da posição adotada. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o
contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam
juntos.
O amor é mais narcisista, mesmo entrega, na 'doação'. Sexo é
mais democrático, mesmo vivendo do egoísmo. Amor é um texto. Sexo é um
esporte. Amor não exige a presença do 'outro'. O sexo, mesmo solitário,
precisa de uma 'mãozinha'. Certos amores nem precisam de parceiro;
florescem até na maior solidão e na saudade. Sexo, não - é mais
realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta
vontade de verdade. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora. O amor
vem de nós. O sexo vem dos outros. 'O sexo é uma selva de epilépticos'
(N. Rodrigues). O amor inventou a alma, a moral. O sexo inventou a
moral também, mas do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge.
O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas
grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói - quando acaba a
valentia, ele vem e come. Eles dizem: 'Faça amor, não faça a guerra'.
Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é
egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a
morte está ali, nas bocas. O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge,
mas não se explica.
O sexo sempre existiu - das cavernas do paraíso até as 'saunas
relax for men'. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas
provençais do século XII e, depois, relançado pelo cinema americano da
moral cristã.
Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é
mulher; sexo é homem - o casamento perfeito é do travesti consigo
mesmo. O amor domado protege a produção; sexo selvagem é uma ameaça ao
bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é
programá-lo, como faz a indústria da sacanagem. O mercado programa
nossas fantasias.
Não há 'saunas relax' para o amor, onde o sujeito entre e se
apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um 'amorzinho' para
iniciar. O amor virou um estímulo para o sexo.
O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor
busca uma certa 'grandeza'. O sexo é mais embaixo. O perigo do sexo é
que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com
camisinha, há 'sexo seguro', mas não há camisinha para o amor.
O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei.
Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos
casados.
Amor precisa do medo, do desassossego. Sexo precisa da novidade,
da surpresa. O grande amor só se sente na perda. O grande sexo sente-se
na tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda - ou não,
dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos
60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta.


I am alone, in spite of love, In spite of all I take and give— In spite of all your tenderness, Sometimes I am not glad to live.
I am alone, as though I stood On the highest peak of the tired gray world, About me only swirling snow, Above me, endless space unfurled;
With earth hidden and heaven hidden, And only my own spirit's pride To keep me from the peace of those Who are not lonely, having died.


I
És uma tentadora: o seu olhar amável
Contém perfeitamente um poço de maldade,
E o colo que te ondula, o colo inexorável
Não sabe o que é paixão, e ignora o que é bondade.
II
Quando me julgas preso a eróticas
cadeias
Radia-te na fronte o céu das alvoradas,
E quando choro então é quando garganteias
As óperas de Verdi e as árias estimadas.
III
Mas eu hei de afinal seguir-te a
toda a parte,
E um dia quando eu for a sombra dos teus passos,
Tantos crimes terás, que eu hei de processar-te,
E enfim hás de morrer na forca dos meus braços.


As ordens da madrugada romperam por sobre os montes: nosso caminho se alarga sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo e alguma esmola de vento quebram as formas do sono com a idéia do movimento.
Vamos a passo e de longe; entre nós dois anda o mundo, com alguns mortos pelo fundo. As aves trazem mentiras de países sem sofrimento. Por mais que alargue as pupilas, mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada senão ir andando à toa, como um número que se arma e em seguida se esboroa, - e cair no mesmo poço de inércia e de esquecimento, onde o fim do tempo soma pedras, águas, pensamento.
Gosto da minha palavra pelo sabor que lhe deste: mesmo quando é linda, amarga como qualquer fruto agreste. Mesmo assim amarga, é tudo que tenho, entre o sol e o vento: meu vestido, minha música, meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade; tenho visto muita coisa, menos a felicidade. Soltam-se os meus dedos ristes, dos sonhos claros que invento. Nem aquilo que imagino já me dá contentameno.
Como tudo sempre acaba, oxalá seja bem cedo! A esperança que falava tem lábios brancos de medo. O horizonte corta a vida isento de tudo, isento... Não há lágrima nem grito: apenas consentimento.


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


It will not change now After so many years; Life has not broken it With parting or tears; Death will not alter it, It will live on In all my songs for you When I am gone.


Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou:
— Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo.
Ele obedeceu:
— Pronto, papai.
O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo:
— Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar?
Vermelho, respondeu:
— Minhas intenções são boas.
O outro esfrega as mãos.
— Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para
minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um
conselho.
Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma espécie de
Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do filho:
— O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? — E baixa a voz: —
É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu?
Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?".
E o pai:
— Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é que
acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher
oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água
abaixo. Compreende?
Abismado de tanta sabedoria, admitiu:
— Compreendi.
A SOMBRA PATERNA
Na tarde seguinte, quando se encontrou com a menina, tratou de resumir a conversa da
véspera. Terminou, com um verdadeiro grito de alma:
— Muito bacana, o meu pai! Tu não achas?
Edila, também numa impressão profunda, conveio: "Acho”.
— Concordas?
Foi positiva:
— Concordo.
Pouco antes de se despedir, Salviano batia no peito:
— Dizem que ninguém é infalível. Pois eu vou te dizer negócio: meu pai é
infalível, percebeu? Infalível, no duro
O BEIJO
Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as possibilidades
ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho, sobre um ponto que
considerava importantíssimo:
— Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca!
A garota, espantada,protestou
— Ora, mamãe!
E a velha:
— Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo muito bem. OK. E
com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito menina e talvez não perceba certas
coisas. Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher,
começa num beijo!
O IDÍLIO
Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos. Sob a inspiração
paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo, sem descurar de nenhum detalhe. Antes
de mais nada, houve o seguinte acordo:
— Eu não toco em ti até o dia do casamento.
Edila pergunta:
— E nem me beija?
Enfiou as duas mãos nos bolsos:
— Nem te beijo. OK?
Encarou-o, serena:
— OK.
Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua:
— Ou será que você vai sentir falta?
— De quê?
E Salviano, lambendo os beiços:
— Digo falta de beijos e, enfim, de carinho.
Sorriu, segura de si:
— Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com a razão.
Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo:
— Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não sou como as
outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que beijo é isso, aquilo e aquilo
outro. Fico boba! E te digo mais: eu tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu
estou arrepiada, olha, só de falar nesse assunto!
O VELHO
Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias ao pai, de suas
idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava Notário, ouvia e dava os conselhos
que cada caso comportava. Durante todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a
par das reações do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as confidências,
queria saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava um cigarro, acendia-o e
dava seu parecer, com uma clarividência que intimidava o rapaz:
— Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem por cento. A esposa
deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo. Essas mulheres que
dão muita importância à matéria não devem casar. A esposa, quanto mais fria, mais
acomodada, melhor!
Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as reflexões paternas.
Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De vez em quando, o rapaz queria
esquecer as lições que recebia em casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante,
tentava enlaçar a pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o:
— Quieto!
Ele recuava:
— Tens razão!
CATÁSTROFE
Um dia, porém, o dr. Borborema, que era médico de Edila e família, vai procurar
Salviano no emprego. Conversam no corredor. O velhinho foi sumário: "Sua noiva acaba
de sair do meu consultório. Para encurtar conversa: ela vai ser mãe!". Salviano
recua, sem entender:
— Mãe?!...
E o outro, balançando a cabeça: "Por que é que vocês não esperaram, carambolas?
Custava esperar?". Salviano travou-lhe o braço, rilhava os dentes: "De quantos
meses?". Resposta: "Três". Dr. Borborema já se despedia: "O
negócio, agora, já sabe: é apressar o casamento. Casar antes que dê na vista".
Petrificado, deixou o médico ir. No corredor do emprego, apertava a cabeça entre as
mãos: "Não é possível! Não pode ser!". Meia hora depois, desembarcava e
invadia, alucinado, a casa do pai. Arremessou-se nos braços de seu Notário, aos
soluços.
— Edila está nessas e nessas condições, meu pai! — E, num soluço mais,fundo,
completa: — E não fui eu! Juro que não fui eu!
MISERICÓRDIA
Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial, ele berrava:
"Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca teve um beijo meu, que sou seu
noivo, e vai ter o filho do outro!". O pai, porém, conseguiu, após poucos,
aplacá-lo. Sustentou a tese de que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e,
particularmente, as mulheres: "Elas são de vidro", afirmava. Alta madrugada, o
pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o
velho foi magnífico: "Perdoar. Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar:
"Ela merece um tiro!". Mais que depressa, seu Notário atalha:
— Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece!
— Quem?
Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de pára-quedas! Há
um culpado". Pausa. Os dois se entreolham. Seu Notário segura o filho pelos dois
braços:
— Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse comigo, eu matava
o cara que...
Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O senhor sempre tem
razão!".
O INOCENTE
Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa de Edila. Com
apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do culpado. Diante dele, a garota torcia
e destorcia as mãos: "Não digo! Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado:
"Foi o Pimenta?". O Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia:
"Não sei, não sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia
de nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto, matou-o, com três
tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um homem, um semelhante, agonizar aos seus pés,
com um olhar de espanto intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os
miolos. Mais tarde, desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa
paterna. Alta madrugada, havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu
Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama para o corredor. E,
lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena e a beija na boca, com
loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário, respirando forte, baixa a voz:
— Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo.
Voltaram para a sala e continuaram o velório.


Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.
Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.
Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.
Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.
(Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962)


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
15/04/1962


No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que
importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de
edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher
ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?
Entretanto a cidade, que durante uns dois
ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone
tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim
três, quatro vezes sucessivas.
Alguém vinha e apertava a campainha;
esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos
dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro.
Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua,
para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.
Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que
tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua
pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era
além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que,
sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a
contemplava tão pura e nua, ela disse: "Meu Deus, seus olhos estão
esverdeando":
Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz,
nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que
um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo
imperceptível, como um lento bailado.
Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também
minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me
lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?
Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol
extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti
vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede,
olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam;
tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.
Havia um grande caminhão vendendo uvas,
pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal;
voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.
E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um
desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e
ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo
de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi
invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso
num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo
não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda
havia uma inútil, resignada esperança.

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